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José Raposo: “Em Espanha, os atores são mais respeitados”

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Aos 53 anos,  a ator faz parte do pilar da representação nacional. Com um currículo recheado de registos diversificados, em frente às câmaras e nos palcos, José Raposo não tem papas na língua e, por isso, às vezes, fica “mais tempo sem trabalho”.

Atualmente é na pele do cómico Vítor que o vemos, diariamente, na novela da SIC “Coração d’Ouro”, a falar com sotaque tripeiro, pois pertence “a uma família da Ribeira (Porto) e fazia todo o sentido”, assume, ressalvando que, “nas gerações mais jovens, hoje em dia, a pronúncia já não é tão acentuada”.

Satisfeito com o papel e todo o guião, Raposo não tem dúvidas: “Adoro a personagem. Foi um presente extraordinário, até porque é raro calhar-nos um ser tão característico e, para mim, representar uma personagem típica de uma região portuguesa é um privilégio. Este é um cromo e cromos destes existem aos pontapés e nós temos que os retratar”.

Para ele, também “é uma sorte o núcleo de atores que formam a família” da ficção. “Criou-se um ambiente entre nós fantástico, o que torna ainda tudo mais fácil”, define quem, na novela, “é um trapalhão”.

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Na vida real, José Raposo tem os pés mais assentes na terra ao lado da também atriz Sara Barradas com quem se casou em novembro de 2012. A trabalharem em projetos e canais diferentes, os dois tentam “conciliar as agendas” para passarem “o máximo de tempo juntos”.

Sara interpreta agora a Guidinha em “Massa Fresca” na TVI, o que deixa o marido “muito feliz” pelo regresso após um ano de paragem. “‘Os Nossos dias’ (o projeto anterior) acabou há um ano, mas ela aproveitou essa paragem para continuar o curso de Psicologia”, conta.

Ter um filho é um projeto comum e que o casal quer “muito”. No entanto,  “não há uma data, será quando for e vai ser muito engraçado ter um neto pequeno, uma cunhada com um ano e três meses, irmã da Sara, e um filhote. Os bebés são o mais maravilhoso desta vida”, confessa José Raposo, orgulho por se ter estreado, há pouco mais de quatro meses, no papel de avô do pequeno Matias.

O menino é filho do descendente mais novo de Raposo, fruto do casamento anterior com Maria João Abreu – com quem tem outro filho, Miguel-, e enche as medidas à família. “A mim e à João faz-nos lembrar o pai, o Ricardo, quando era pequeno”. Assumidamente “um avô babado”, o ator está com o bebé sempre que pode, apesar de ter uma vida muito ativa e dividir-se atualmente entre a televisão e o teatro.

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Pronto para a digressão, num país que “não dá trabalho a gordos ou a velhos”
Este mês e já no dia 13, José Raposo termina as gravações de “Coração d’Ouro” e, dois dias depois, a peça “A República das Bananas” de Felipe La Féria, no teatro Politeama, em Lisboa. Depois, “penso que irei de férias” aponta, sendo certo que “há projetos” que ainda não pode adiantar.

Apesar do desejado descanso, anseia ainda por “muito teatro”: “Quero produzir eu mesmo como fiz há três anos com ‘Isto é que me dói’ com os meus filhos e a Sara. Quero porque gosto e não faz sentido nenhum as pessoas serem atores e não terem prazer como o que eu sinto em palco quando tenho a reacção do público. É a minha alimentação”. E, já há ideias, para “absorver este país que eu adoro em digressão, talvez com um monólogo ou algo com a Sara e colegas que vou escolher”.

Frontal e também realista, o artista lamenta que “muitos colegas não sejam reconhecidos no sentido de lhes darem trabalho”. “Em Espanha, os atores são mais respeitados, até ao nível da idade. Há preocupação de dar trabalho aos mais velhos e aos bons atores, enquanto aqui não se dá trabalho a velhos ou a gordos porque não dão audiências”, acusa quem já sentiu o preconceito na pele apenas “por dizer” o que pensa. Como “represália e uma certa censura mascarada” fica-se “mais tempo sem trabalho”, sendo que “a cultura continua com uma miséria ao nível do orçamento de Estado e, mesmo ao nível da imprensa, o que vende são as caras bonitas”.

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Fotos: José Gageiro