Atualidade

Lula da Silva preso: Foi assim o último dia de liberdade e será assim na cadeia

O palanque foi instalado em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, e foi ali que o antigo presidente brasileiro se despediu do povo e do clero antes de se entregar à polícia.

Lula da Silva foi condenado em julho do ano passado pelo juiz federal Sérgio Moro a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e branqueamento de capitais no caso do apartamento triplex no Guarujá, São Paulo.

Uma pena que foi aumentada para 12 anos e 1 mês de prisão, pelos juízes desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

A defesa de Lula da Silva tentou, através de recursos preventivos de ‘habeas corpus’, evitar a prisão antecipada, mas tanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) como o STF negaram essa possibilidade.

No dia em que se deveria ter entregado à polícia, Lula discursou no Sindicato. E este sábado, 7 de abril, assistiu à missa em memória da sua falecida mulher Marisa Letícia – que nesse dia completaria 68 anos de vida – e teve direito a festa com uma lista de músicas escolhidas, com Chico Buarque e Zeca Pagodinho pelo meio.

“É golpe”, disse um dos padres que celebrou a missa por Dona Marisa, enquanto outros brincavam e riam, cúmplices, com Lula.

Não é algo muito normal – ou tão óbvio – em Portugal, mas sim no Brasil, ver o clero tão próximo da política. É que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, autoridade da igreja católica, é considerada próxima da esquerda por causa da luta comum durante a ditadura militar.

Milhares de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras forças políticas ainda pediram a Lula para não se entregar, mas este não acedeu ao pedido. “Eu não sou um ser humano, eu sou uma ideia, todos vocês agora vão virar Lula, eles acham que tudo o que acontece nesse país é responsabilidade do Lula, agora eu responsabilizo vocês”, disse.

“Eu vou”, disse Lula da Silva, às 16:42 de sexta-feira (20:42, em Lisboa).

Quase 20 horas depois do horário sugerido pelo juiz da Operação Lava-Jato Sergio Moro, o antigo presidente do Brasil anunciava aos seus apoiantes, em clima de comoção, que estava preparado para começar a cumprir os 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro pela posse do apartamento tríplex no Guarujá.

Foi já só na tarde deste sábado (noite em Lisboa), que depois de romper um bloqueio criado pelos próprios militantes para conseguir sair a pé e entrar num carro da polícia rumo à esquadra do aeroporto de Congonhas e daí, de helicóptero, para a cela em Curitiba.

Quanto ao que o espera na prisão, isso já foi descrito por quem lá esteve.

A sala, que costuma receber agentes de fora de Curitiba, fica por cima do andar onde cumprem pena dois delatores de Lula.

Além da Lava-Jato, a mais mediática operação da polícia brasileira dos últimos anos foi a Operação Carne Fraca, que investigou casos de corrupção entre empresas produtoras de carne e fiscais do ministério da saúde com prejuízos graves para as exportações do país.

Essa operação também partiu de Curitiba mas envolveu agentes de outros estados que precisaram de pernoitar na capital do Paraná. Foram esses agentes os últimos hóspedes da sala onde Lula vai agora cumprir a pena que lhe foi decretada.

“Uma sala rústica mas digna”, resumiu um desses agentes à imprensa. Na ocasião, a sala, com 15 m2 de área, tinha dois beliches; agora terá apenas uma cama de solteiro.

Fica no quarto andar do edifício sede da polícia federal curitibana, no bairro de Santa Cândida, inaugurado pelo próprio Lula em 2007. Tem duas janelas, ambas com vista para o interior da sede.

Por ser no quarto andar e o elevador chegar apenas ao terceiro, Lula ficará isolado dos restantes detidos no edifício, entre os quais dois seus ex-amigos íntimos tornados inimigos de estimação nos últimos meses.

Em 1980 (em cima) e 2018 (em baixo), salienta a página de Facebook de Lula da Silva

Léo Pinheiro, o presidente da OAS, a construtora que terá oferecido o tríplex a Lula, e Antonio Palocci, braço direito para a área económica do antigo presidente durante os seus mandatos.

Pinheiro confirmou a Sergio Moro que o tríplex seria para Lula e Palocci detalhou casos de corrupção no governo do Partido dos Trabalhadores com o conhecimento pleno do então presidente.

Lula terá por isso direito a duas horas de banho de sol diárias em horários alternativos aos de Pinheiro e Palocci.

O presidente de 2003 a 2010 terá ainda casa de banho privativa, um luxo invulgar nas prisões brasileiras, um armário embutido e uma mesa onde se poderá reunir, em horários a definir, com visitas e advogados. Mas não há nem televisão, nem minibar para entreter o líder espiritual do PT.

Os advogados do antigo presidente anunciaram que apresentaram, na sexta-feira, um novo recurso perante o STJ para travar a iminente prisão do ex-líder sindical e ex-Presidente do Brasil. Um pedido que foi, mais uma vez, recusado pelo juiz Felix Fischer, relator da Lava Jato.

Uma grande queima de fogos aconteceu logo que Lula chegou à sede da Polícia Federal (PF) em Curitiba. No local, houve uma grande concentração de manifestantes pró e contra Lula.

Os militares atiraram bombas e balas de borracha contra apoiantes do ex-presidente no momento em que o helicóptero que o transportava pousava na sede da PF.

Lula torna-se assim o primeiro presidente da história do Brasil preso após condenação penal.

Foto: Ricardo Stuckert/Facebook