A casa é o sítio onde me faço. Na minha casa só entra quem amo. É uma espécie de cofre do abrigo. Foi feita por mim. Cada coisa, é mais que uma coisa, é uma alma do lugar de onde veio. A minha casa não tem janelas, só portas. Tem a luz toda do sol. Quando entro em casa, deixo parte da vida lá fora. Para casa só levo a minha alma. Dentro das minhas paredes gosto de flores frescas e vivas. Gosto de regar as plantas, sentir o cheiro da terra, e assumir que ao rega-las, também rego a minha alma. Na minha casa há um cão, dois pássaros e o amor da minha vida. Sem amor, somos almas sem donos, sem rumos, sem ordem. A minha casa é uma espécie de lugar onde os amigos se sentam para ficar, sem pressas, com tudo o que precisamos para sermos felizes. É em casa que me guardo, sem precisar de armário. Gosto de andar descalço e nu. Sentir as madeiras, os lençóis, a luz nos pés, os azulejos. Gosto de velas. Brancas em taças de vidro, sem complicar. Aliás, na minha casa não há complicações, não há mentira na ordem das coisas, não há julgamento no lugar dos objetos. É uma casa livre. Com livros fora do sítio, mas arrumados. Não gosto de casas caóticas. Não gosto de casas arrumadas à exaustão. A minha casa é virada para o sol e para o mar. Preciso de sabê-lo por perto. Esta é a minha casa. O maior bocado de mim, das coisas que gosto, das pessoas que amo. Está tudo em minha casa, estão todos em minha casa.
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Hélder Reis
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