Não abandonem a nossa mesa.
Tenho ouvido alguns comentários sobre esta nova onda de jantar no sofá com um prato na mão, na melhor das hipóteses num tabuleiro. Dá jeito, desarruma pouco e até entendo que de vez em quando aconteça. Mas para fazer do assunto “assunto” é porque estou a falar de famílias inteiras o que já não parece tão entendível. Li recentemente que cerca de 25% dos britânicos já não têm mesa de jantar em casa… e esta? E que a tendência é aumentar. Ainda hoje, em conversa sobre este assunto me responderam: “Lá em casa já adoptei esse sistema…” Quem vê ou viu, por exemplo, a série Big Bang Theory (há quem adore e quem deteste, eu estou no lado dos “adoros”) esta é a prática diária. Não me lembro de os ver em casa a jantar numa mesa, aliás nem me lembro de ver a mesa! É giro, moderno, talvez. Parece-me muito moda americana. Parece-me muito pouco para nós.
Nós que temos a sorte de ter fortes tradições gastronómicas, de mesa e fama de “bem comer”, não podemos deixar que um hábito tão salutar como este desapareça. Por isso, por aqui surpreende-me. Francamente não acho bem. Cada um faz o que quer, claro está, mas não deixem de gozar o prazer de estar à mesa. Mais ainda aproveitar essas alturas para por a conversa em dia para falarem uns com os outros. (Desliguem o wi-fi!)
E não me entendam mal que eu não me importo nada de tomar pequenos-almoços e almoçar “ao balcão”, quando é preciso, mas estas são as exceções! Mesmo a viver sozinha já há uns quase dois anos… Minha rica mesa! É tão nosso e há tradições, como esta, que se devem manter. A vida “moderna” tem destas coisas, falta de tempo que nos faz, infelizmente, começarmos a não aproveitar o pouco tempo que temos para preservar o que faz tão bem ao bem-estar de cada um e ao bem-estar do conjunto. É a altura ideal para contar as histórias do dia para as crianças falarem das suas novas experiências, para saborearmos a nossa comida com a atenção que ela merece. A televisão… pode esperar. Mais ainda nos dias que correm que anda para trás como quisermos. Em casa dos meus pais, bem eu podia quase chorar a um sábado ou domingo à hora de almoço, para dormir mais uns minutos que a noite tinha sido longa, que ouvia sempre o mesmo… “ao almoço e ao jantar estamos na mesa juntos… (mais nada!)”. Tenho que concordar.
Não se isolem com um computador, uma televisão, um telemóvel ou outra “geringonça” qualquer, podem estar com eles sempre que quiserem…já com as vossas pessoas podem não ter tanto tempo! Aproveitem! Disfrutem! Comam bem, à nossa mesa e convivam todos os dias. Em casa, ou fora, mas sempre à Mesa com certeza!
“-Até que o espírito da criança seja essas coisas sugeridas e que a soma dessas coisas sugeridas seja o espírito da criança. E não apenas o espírito da criança, mas igualmente o espírito do adulto, e para toda a vida. O espírito que julga, deseja e decide, constituído por essas coisas sugeridas. Mas todas essas coisas sugeridas são aquelas que nós sugerimos, nós! – Com o entusiasmo, o Director quase gritou. – Que o Estado sugere. – Deu um murro sobre a mesa mais próxima. – Disto resulta, por consequência…
Um ruído fê-lo voltar-se.
– Oh, Ford! – disse, noutro tom. – Então não acordei as crianças!?” In “Admirável Mundo Novo” Aldous Huxley
