Dantas Rodrigues

Advogado

Hoje é a calçada portuguesa. Lá mais para diante o que será?

Os lisboetas andam surpreendidos – pelo menos, aqueles que ainda se surpreendem com alguma coisa – com a notícia de que a Assembleia Municipal aprovou a substituição da calçada portuguesa em alguns locais da cidade, a fim de facilitar a mobilidade das pessoas.

Como é enternecedor os políticos lembrarem-se das «pessoas» e preocuparem-se com a calçada que é escorregadia e desconfortável e, no caso das senhoras, com o ficarem com os saltos altos presos entre dois paralelepípedos de uma qualquer calçada da cidade e estatelarem-se no chão. Neste sentido, o novo Plano Director Municipal (PDM) de Lisboa, para os próximos 10  anos,  prevê a substituição do característico pavimento português por um mais confortável e moderno para caminhar.

A calçada à portuguesa, tal como o nome indica, é originária de Portugal, consiste na aplicação artesanal de pedra natural de formato irregular, calcário branco e negro, que transmite uma herança cultural de calcetamento do pavimento desde o Século XIV, reinado de D. João II.

A autarquia argumenta que pretende substituir a calçada portuguesa em alguns locais da cidade a fim de facilitar a mobilidade das pessoas. Tudo para nossa segurança, claro. E, em nome dessa bendita segurança, vai-se destruir o pouco que ainda nos orgulha enquanto lisboetas e que constitui, no estrangeiro, a verdadeira imagem de marca de uma cidade que, como se sabe, não é monumental, não tem amplas avenidas, carece de parques e jardins, e onde tudo, enfim, parece acanhado.

Em nenhuma capital europeia das que melhor conheço se tem perpetuado tanta ausência da gestão viva da cidade. Falta de lavagem das ruas, grafitagem que enche as paredes dos prédios, tapumes que os cobrem, emparedamentos que os encerram, buracos constantes e permanentes no pavimento, espaços verdes em abandono ou substituídos por betão.

Olhe-se para a Baixa, a Rua dos Fanqueiros e a Rua da Prata. Conte-se quantos edifícios (e estamos a falar de prédios pombalinos) se encontram entaipados e antigas lojas com as vidraças seguras por fita adesiva. Isto, claro, já para não falar das lojas asiáticas que transformaram tão nobre sítio num abarracamento próprio do quarto mundo. A culpa não é dos comerciantes asiáticos, mas da total ausência de fiscalização e cumprimento das normas municipais para licenciamento dos estabelecimentos.

Na capital, com tantas e profundas fragilidades sociais que nos entram todos os dias pelos olhos adentro, não existirão outras preocupações nas cabeças pensantes dos políticos da edilidade do que substituir o revestimento dos passeios?

E, por falar em gestão viva de cidades, recordo a tão exemplarmente democrática Suíça, que legislou de forma a não permitir que as cidades se transformem num qualquer emirato ou califado das arábias, com minaretes erguidos e outras aberrações que os políticos tanto gostam. Impondo, com fins de prevenção penal, o paralelismo do terrorismo e do crime organizado à destruição do ambiente e de tudo o que dele faz parte, como, evidentemente, o património. Isto, sim, é que é protecção.

Houvesse cá legislação semelhante e não teríamos os políticos de rotundas e minaretes que temos, hoje dispostos a permitir a substituição da calçada portuguesa por um qualquer pavimento, extinguindo-se a arte e engenho dos mestres calceteiros. E amanhã o que será?