Dantas Rodrigues

Advogado

Para que serve o cargo  de secretário de Estado da Cultura?

A função do secretário de Estado da Cultura é dirigir a política cultural do Estado. Porém, em vez de valorizar a criação artística e salvaguardar o património material e imaterial só tem virado as costas à cultura. “E, ainda por cima, o tipo é um intelectual”, frase que começa a ouvir-se cada vez mais por aí, sobretudo quando quem a pronuncia já esgotou todos os argumentos para persuadir o seu interlocutor. Sem querer adentrar-me por períodos muito longínquos da nossa História, bastará apenas recordar que foi preciso vir um rei (consorte) da Alemanha para resgatar um quadro de Hieronymus Bosch que estava a desfazer-se numa húmida cave de um dos nossos palácios ou, falando agora de metal sonante, foi graças a esse monarca germânico que a custódia de Belém saiu da Casa da Moeda, onde aguardava vez para ser transformada em dinheirinho.

D. Fernando II, que amou muito Portugal, não sei o que pensou de nós lá no íntimo, nem, de resto, ninguém sabe, mas, nos seus maus momentos, é bem possível que nos tivesse achado uns broncos. Aliás, não se gozou pouco com ele, pois até a sua estatura, que era bastante elevada para a época, forneceu motivo para zombarias de barbeiro, e sempre por causa do seu gosto pelas artes, demais a mais agravado por ter escolhido para sua segunda mulher uma cantora de ópera.

Este é apenas um pequeno episódio da má relação dos portugueses com a cultura. Com maior ou menor intensidade, com épocas mais ou menos felizes, andámos sempre em conflito com a dita-cuja. Falando de tempos muito próximos de nós, até tivemos à frente dos destinos da cultura homens de grande nível intelectual, com obra feita, como foram os casos de um David Mourão-Ferreira, de um António Coimbra Martins (quem é que se lembra já deles?) ou, mais recentemente, de um Manuel Maria Carrilho. Todos rodeados de gente capaz, souberam criar e souberam realizar. Um pequeno exercício de memória (que também é cultura), vale a pena fazer. David Mourão-Ferreira, o grande poeta e professor, criou a Companhia Nacional de Bailado, António Coimbra Martins, antigo presidente do Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, criou a régie das orquestras sinfónicas do Estado e Manuel Maria Carrilho teve uma visão europeia da cultura, visão essa a que não estávamos nada habituados e que por isso não se nos adequava. Ficava-nos curta nas mangas, como dizia o grande Eça…

Evidentemente que muito mais coisas realizaram, mas os que se lhes seguiram ocuparam-se a deitar abaixo tudo o que eles fizeram ou, na melhor das hipóteses, a «aperfeiçoar» o que encontraram, o que, quase sempre, é bem pior do que deitar abaixo. Veja-se o que hoje resta da Companhia Nacional de Bailado, das orquestras portuguesas (temos uma sinfónica em Lisboa, quando devíamos ter, pelo menos, três) e da política cultural europeia de Carrilho. E não me venham falar de crise, porque nem a Espanha, nem a França, nem a Itália e, até nem mesmo a Grécia, estão no estado de penúria financeira e sobretudo intelectual em que nos encontramos.

A cultura em Portugal tem sido ultimamente – e agravada por factores a ela estranhos – uma terra de ninguém e, ao mesmo tempo, um espaço de amiguismo falso e de oportunismo. E para que se veja que assim é, recorde-se que os ministros nomeiam directores-gerais que depois os decepcionam porque eles, directores-gerais, também querem ser ministros. E o resultado não é política, no sentido nobre do termo, mas sim zanga de comadres. A  ex-ministra Gabriela Canavilhas, sem obra nem nada feito na vida, nomeou director-geral das artes o actual secretário de Estado da Cultura, também sem obra nem nada feito na vida, que então a traiu, como a imprensa da altura noticiou largamente. Barreto Xavier está agora no poder e Gabriela Canavilhas na oposição. Faça o que um fizer, o outro dirá logo não, e a cultura só andará para trás. O homem da rua terá então cada vez mais razão em detestar os intelectuais, esquecendo que o secretário de Estado da Cultura actual e a ministra que o precedeu na mesma tutela afinal não eram e não são cá precisos para nada.

 

* Por Dantas Rodrigues, sócio-partner da Dantas Rodrigues & Associados