Dantas Rodrigues

Advogado

A crise e o luxo

A crise e o luxo interligam-se. Não obstante o luxo ser uma palavra mal vista, por razões de falsa modéstia, uma vez que aqueles que mais pretendem mostrar que estão contra ele são, como de costume, os que mais ostensivamente o praticam.

Comummente associado ao consumo insensato, o luxo nunca é visto, por exemplo, como um bem social da maior importância. E se não o é, então que dizer do «desenvolvimento sustentado», que significa pura e simplesmente luxo dos luxos. Sim, a energia solar, a energia eólica, o planeta verde, etc., etc., e tudo o que a isso está ligado custa somas incalculáveis de dinheiro e só está ao alcance de alguns. Como se vê, não estamos a falar de Mercedes nem dos muito parisienses sacos-de-mão Hermès. Estamos a falar de respirar melhor, beber água mais limpa, luxos, enfim, a que não se poderão dar os africanos, os sul-americanos e quase todos os asiáticos, japonese incluídos.

Outro luxo de que ninguém fala é o «tempo». Tempo, esse bem precioso e raro que permite que se possa pensar e fazer bem. Claro está que quando digo fazer bem quero dizer fazer com qualidade, fazer de modo a que as coisas fiquem bem-feitas e que durem. E isso leva-nos, de imediato, a produtos que, por levarem tempo (muito tempo) a fazer, têm forçosamente de custar dinheiro. Uma mala «Grace Kelly» ou um «foulard» da Hermès, pelo tempo que levaram a ser concebidos e pelo tempo que levam a fazer não podem custar, como é óbvio, o que custa uma mala ou um lenço feitos na China ou noutro qualquer país asiático. E, tal como o desenvolvimento sustentável, também esses e outros produtos similares só se encontram ao alcance de alguns.
A sustentabilidade e durabilidade não são mais do que puro luxo. Uma e outra, pelo mundo dimensional em que se inscrevem, têm muito de qualidade, de tempo e de sonho. Quanto aos objetos, a durabilidade será talvez o aspeto que leva as pessoas a gastarem mais, até por razões de economia. Comprar uma mala «Louis Vuitton» acaba por sair mais barato do que comprar uma mala feita sabe-se lá onde, que desaparece ao fim do primeiro ano de uso.

Evidentemente que se pode ligar o luxo à moda e às marcas de luxo que continuam, no essencial, a ser europeias. O mesmo se pode dizer de tantas outras coisas do dia-a-dia, às quais não damos grande importância. Por exemplo, há dias, estando num restaurante, um amigo com quem jantava dizia-me: «este sítio é caro mas, se virmos bem as coisas, acaba por ser barato, porque é amplo e não saímos daqui com a roupa a cheirar a fritos, tem muitos empregados e assim não esperamos, nem a comida chega fria à mesa. Isto, nos tempos que correm, é um verdadeiro privilégio!» Ele tinha razão. Que contraste com o que se vê por aí, onde, feitas as contas como deve ser, pagamos bem mais do que nos chamados restaurantes de luxo.

A qualidade, de preferência alta, independentemente das crises, tem sempre um preço a pagar. E, se se for bem servido, então que se pague!

 

* Por Dantas Rodrigues, sócio-partner da Dantas Rodrigues & Associados