Tozé Santos e Sá

Advogado

Foz

Sempre ouvi dizer que somos um povo pequeno. Não acho nada. Desculpem esta mania de ser do contra mas, desta vez, tenho razão. Somos uma população bem alta e não se julgue que é por termos muita gente em bicos de pés.

Em todas as cidades, calculo, existe uma raça de gente que vive de sobrenome pomposo. Mesmo quando já venderam os anéis.

Somos abençoados por ter os “fozeiros”. Os que não são do Porto, ofensa lesa pátria que não ouso cometer, antes são da Foz.

Gente importante, claro, já se vê. Gente que pensa que, por estarem em extinção, devem ser protegidos com regalias e acreditam ser uma raça superior.

Têm quase todos, seguramente, 2 metros na arrogância e galões. Já na carteira não veem nada…

Até o mar anda revoltado! Embora tenha cá para mim que a água em excesso não passa do choro dos ditos da zona.

Que enfado as casas estarem velhas e a precisar de obras. É injusto, já não existirem pobres da aldeia a trabalhar por um prato de sopa. Na altura dos seus avós, quando bastava ter um olho para se ser rei, eram os maiores da sua Foz, e há cosias que não deviam mudar. Afinal a tradição é para se manter, e o que eles se esforçam…

Infelizmente, as insolvências pessoais estão a estragar-lhes a vida. Uma chatice. Uma verdadeira maçada. O que vale é que há sempre mais uma filha/o, mãe, ex-mulher, namorada para poder queimar e viver mais uns anitos do estatuto diferenciado. Nem tudo é mau e, felizmente, a justiça anda como anda. Malditas dívidas fiscais! Devia haver uma isenção para quem vive naquela zona especial e de méritos. Já chega ter de andar de Porsche com a revisão adiada…

Revoltante! Não é que os colégios agora deram para pedir as prestações dos filhos que estão em atraso? Que aborrecimento… Ainda mais o trabalho que dá ter de arranjar uma desculpa para explicar que os miúdos tem de sair daquele colégio indigno que quer receber a mensalidade.

Parece que o mundo está a conspirar contra esta gente do bem.

Benditas as tertúlias de atualização da vida alheira praticadas bi-diariamente ao final da manhã, onde o café substitui o almoço, e ao final da tarde, na confeitaria “in”.

Para nós, mundanos sem sobrenome que vivemos no Porto e que não estamos autorizados a misturar-nos, quando nos conseguimos infiltrar, o espetáculo é giro à moda dos Fozeiros, “à goela”!