Muitos têm sido os futebolistas que fascinam multidões. Que, pela sua classe, gozam de justa fama e natural prestigio.
O PANTERA NEGRA mais que um “fora de serie” é o símbolo maior do futebol. Está, manter-se-á, no galarim do futebol mundial.
Não o vi jogar. Só dançar, sem bola, com bola. Durante toda uma vida muitos não descobrem o que de genial sabem fazer. EUSÉBIO nasceu para o futebol, tem futebol, contagiou-nos com a sua arte, seria bailarino do mesmo jeito inato aos predestinados.
O seu jogo era já uma forma de bailado…
Filho de pai branco não se importava que lhe chamassem preto.
EUSEBIO DA SILVA FERREIRA era Benfica. Ele e mais uns geniais que nos fizeram um dos 8 clubes míticos do mundo… Sem marketing de outros, mesmo naquele tempo, é considerado pelo planeta o 9º melhor de sempre, injusto digamos…
Esqueçamos os anos finais da década de 70 em que foi maltratado, como outros depois (Toni, o cabeçudo), outros ainda hoje (Artur, o russo – melhor lateral direito da europa). “Quem fala? É o Ferreira”, apresentava-se.
Benfica (Gaspar Ramos) resgatou-o. Vieira adquiriu, por “6 mil contos/mês”, o seu apoio, salvaguardando a esposa Flora, filhas, Carla e Sandra, e netos. Quem o pode criticar?
Teria 10 anos quando numa festa do Benfica o vi no Coliseu do Porto.
Guardo a sua 1ª autobiografia de 1966, roubada ao meu avô, ainda vivo (não lê estas crónicas senão ficara a saber onde para o seu livro). O tal que, mesmo levando comigo, nunca tive coragem para pedir que me autografasse…
Há 12 anos que o conheci. Uma vintena de convívios e, para ele, era “tu, o amigo do Malheiro”.
Na intimidade a sua prosa era outra, menos fechado, mais alegre, seguro, conhecedor do seu valor e do que representava. Contudo, só onde se sentia em casa, “Tia Matilde”.
“QB”, “Sete Mares” e afins.
Nunca tirei uma foto ou pedi um autógrafo. Partilhar o mesmo ar foi sempre mais importante e eterno. Um dia autorizou e passei a mão na carapinha…
Horas e horas seguidas que atravessavam o dia, a noite, almoço, jantar e ceia…com muitos ídolos…hipnotizante ouvir histórias, perceber o que é o Benfica, aqueles heróis, de 60, 70 e 80…
Hoje digo-vos o que é a mística do Benfica. É preciso sentir… traduz-se numa palavra… “GANHAR” dita berrada… com murros na mesa por EUSÉBIO… única altura em que O MAIOR se exaltava…
Que grande se pode gabar de ter mesa reservada, todos os dias para si, em que ninguém se sentava… que grande pode dizer que tinha os seus copos (balão de whisky) autografados por si, copos em que só ele bebia…e era assim em todo o lado. Uma reverência e um respeito digno de quem pode…
Estátua em vida, torneio com o seu nome, nunca os azuis com ele a jogar ganharam nada… orgulhava-se…
É por isso que, muitos não sabem o que é ser grande… não precisava mostrar… foi, era, é O MAIOR. Coitados dos que nem em bicos de pés…
Isso notava-se, sentia-se, em qualquer lado, com qualquer pessoa. UM MONSTRO SAGRADO. Jogadores fenomenais que se curvavam…tertúlias infindáveis, recordações, memórias, tanta aprendizagem. Talvez por isso, por saber o que é ser REI de verdade não me encante com misérias…
Mágoa sentida de perceber que os novos já não lhe davam valor, já não o ouviam…já não correm, não sofrem, não sentem Benfica, não “QUEREM GANHAR” como ele…
Recentemente, o estado agravou-se por um tumor no cérebro. Devias ter ficado mais, devias ter-nos dado um filho…
Partiste. São treze agora os Deuses do Monte Olimpo…
Não é todos os dias que se conhece um KING, eu conheci um DEUS!
Vou ali…até terça!
