quarteto

“Os grandes textos conhecem-se pelo déjà vu”, afirma Heiner Müller, dramaturgo alemão que marcou poderosamente a cena teatral da segunda metade do século XX e cuja poética vive tanto dos mitos antigos e da grande tradição dramática (Sófocles, Shakespeare, Artaud, Brecht) como dos fantasmas de um passado próximo que nunca se encerra (nazismo, comunismo, barbárie, revolução). Em Quarteto, a esfinge negra do teatro alemão visita Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos, um romance epistolar do final do século XVIII no qual o jogo de sedução de dois ex-amantes se converte num feroz instrumento de manipulação. Encenador que nos tem oferecido novas leituras de clássicos contemporâneos – de A Voz Humana de Cocteau a À Espera de Godot de Beckett –, Carlos Pimenta dirige este Quarteto que se gera no interior de um dueto (ou duelo) amoroso. Lígia Roque e Albano Jerónimo, atores que protagonizaram marcantes produções do TNSJ, são a Merteuil e o Valmont de um combate de feras e jogo de máscaras radicalizados pelo prenúncio de um fim. Diz-nos Carlos Pimenta: “O tempo não está disposto a mudar as suas regras e os velhos amantes confrontam-se com aquilo que agora são. Os seus corpos têm um destino já traçado.”