Doce Passaro Juventude

Os Artistas Unidos insistem em devolver ao teatro aquilo que o cinema parecia ter fixado para sempre: as peças de Tennessee Williams, autor dramático que o jornal de maior circulação dos EUA cognominou como the hottest playwright in America. Antes, veio Gata em Telhado de Zinco Quente, coproduzida pelo TNSJ em 2014; seguir-se-á A Noite da Iguana, a estrear em 2017. Por agora, Jorge Silva Melo faz-nos sentir o pulso dessa “peça poderosa, desarrumada, insólita” que é Doce Pássaro da Juventude (1959), na qual um jovem regressa à terra de onde, sem êxito, saíra à conquista do mundo. Acompanha-o uma atriz decadente, em fuga do fracasso do seu último filme, de quem o jovem espera ainda auxílio para vingar no mundo do cinema. “Ele nunca viveu o que queria; ela perdeu a glória da sua juventude”, resume o encenador, que entrevê no trajeto das personagens de Tennessee Williams – aqui interpretadas por Maria João Luís e Rúben Gomes – uma descida aos infernos para, como Orfeu, resgatarem o passado e aquilo que não está ao seu alcance. É uma dessas dilaceradas personagens que se dirige ao espectador: “Não vos peço piedade, só vos peço compreensão… Não, nem isso. Apenas que me reconheçam a mim dentro de vós, e reconheçam o inimigo que temos: o tempo, o tempo que passa em todos nós.”