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Antigamente, a vida era uma selva. Agora, a vida é uma selfie. Toda a treta se dispersou e cresceu nas redes sociais, e os especialistas têm tido alguma dificuldade em encontrar a genuína conversa da treta. Mas quem é vivo sempre falece, e também sempre aparece. Nada se perde, tudo se transforma – o código genético da Treta renasce em 2016 com a assustadora e nada aguardada peça de teatro FILHO DA TRETA.

Zezé (José Pedro Gomes) prossegue a sua luta contra o bom-senso, a solidariedade, o trabalho e outros conceitos primeiro-mundistas, desta vez na companhia de Júnior (António Machado), o filho de Toni que Zezé nunca quis ter. Em pequeno, o brinquedo favorito de Toni era correr. Em adulto, era o seu Tonimobile. Hoje, o seu herdeiro hipster anda de bicicleta desmontável. Zezé, ao nível da deslocação, continua a polir a ponta do sapatinho de verniz com cuspe. Mas é um cuspe mais sábio, próprio de quem esteve um mês e meio a dormir e foi dado como morto, com muito orgulho.

Numa comovente irritação entre duas gerações perdidas, discutem-se as tascas gourmet, os refugiados, os paus de selfie, o número de horas que o presidente Marcelo consegue ler debaixo de água sem respirar; e outras pragas que assolam o mundo moderno deste saudoso bairro em vias de extinção.