Conjunto Bulimundo e o seu líder Carlos Alberto Martins mais conhecido pelo nome de “Katchas” são dois nomes intimamente ligados ao Funaná, o género musical que constituiu uma novidade em Cabo Verde, nos primeiros anos da Independência. O Funaná foi até 1975 uma música limitada ao meio rural da ilha de Santiago e reprimida pelas autoridades coloniais.
Música típica dos meios rurais e suburbanos da ilha de Santiago, o funaná é, nas suas origens, um canto tradicional acompanhado com acordéon diatónico, sendo o seu ritmo construído pelo esfregar de uma faca numa barra de ferro. As letras das músicas abordam temas da vida quotidiana no campo a par das grandes atribulações e tragédias do povo cabo-verdiano, como as fomes, o contrato para o Sul-Abaixo, a exploração dos camponeses pelos grandes proprietários rurais, etc.etc Integrante de vários subgéneros, desde os mais ritmados e repicados aos mais dolentes e saudosistas, em nomenclaturas como funaná-samba, funaná-marcha, funaná-morna, funaná repicado, etc, os bailes de Funaná são uma tradição, sempre renovada, no meio rural. Era e ainda dançado aos pares, sendo por isso propício para adaptações a bailes nos meios urbanos e às modernas danças de salão.
Graças ao trabalho pioneiro do Conjunto Bulimundo, o Funaná tinha deixado de ser, em meados dos anos 1980, um conceito musical estritamente ligado ao Conjunto Bulimundo para se tornar num género de música nacional com varias correntes e estilos. O Funaná entraria a seguir no caminho da internacionalização e o Conjunto Bulimundo é vítima do seu próprio sucesso.
Outros músicos e conjuntos seguem a senda trilhada pelos Bulimundo, com destaque para o conjunto Finason e, mais recentemente, os Ferro Gaita.
Tendo procedido à modernização do funaná, trajando-o com as cores contemporâneas e dotando-o do instrumentário electrónico indispensável à sua subida aos palcos urbanos e à sua interiorização pelos citadinos e pelas populações de todas as ilhas e diásporas, os Bulimundo criaram as condições favoráveis à plena afirmação de um género musical que hoje inscreve-se no quotidiano em modos puramente tradicionais, enquanto caminho´l fero tocado com a gaita e os ferrinhos, modernizantes, com basse em instrumentos electrónicos e em formas híbridas interpretado através de instrumentos electro-acústicos, tradicionais e electrónicos. Foi de tal monta, o impacto do funaná moderno na sociedade caboverdiana que novos subgéneros da mesma música fizeram a sua aparição, sendo de destacar o funamba e o funacol.
Não menos notável foi o contributo dos Bulimundo para a dignificação e a ampla valorização dos tradicionais cultores do funaná, que, como nos exemplos de Codé di Dona, Sema Lópi, entre outros, passaram a granjear grande popularidade nos meios caboverdianos e da world music.
É ainda de se realçar que o trabalho de pesquisa e divulgação da música caboverdiana realizado pelos Bulimundo não se limitou somente ao funaná, tendo também abrangido a morna, a coladeira e a coladance. O trabalho pioneiro e de continuidade dos Bulimundo gerou ademais numerosos compositores e intérpretes nos três principais géneros musicais caboverdianos.
Hoje, mais de 30 anos passados a música do Conjunto Bulimundo não ficou ultrapassada, pois tornou-se numa referência.