cover_balla-01

O trabalho de Armando Teixeira, como produtor, como Bulllet ou como Balla, é animado por uma ideia comum de exploração da memória: das pessoas, das canções, das máquinas. Não espanta por isso que a sua mais recente criação leve o título de Arqueologia. É que enquanto o mundo pop avança à superfície, Armando Teixeira vai escavando as entranhas dos seus sintetizadores, processadores de efeitos ou mesas de mistura em busca daquele pulsar que foi erguendo um futuro para a pop – das misturas wall of sound de Phil Spector às estratégias de sequenciação de Giorgio Moroder, dos ricos tecidos de tecelagem sintética de John Foxx ao cubismo computorizado dos Kraftwerk. Tudo isto o inspira.
Arqueologia já é o sexto trabalho de Armando Teixeira desde 2000. Se a isso juntarmos três álbuns de Bulllet e múltiplas outras produções para outros artistas, perceberemos que o seu trabalho autoral já se traduz numa obra de corpo generoso. Sempre em redor da pop, sempre apoiada na extracção de emoção das máquinas, sempre orgulhosa da sua própria memória. Não esquecer que no centro do estúdio de Armando Teixeira, de paredes forradas a artefactos que ajudam a contar a história da electrónica, está uma mesa de mistura do arranque dos anos 80 que em tempos gravou discos de José Cid. Mas Armando Teixeira não se situa a 10 mil anos de distância, algures entre um planeta distante e a Terra. Pelo contrário: situa-se aqui mesmo, agora. Só que plenamente consciente de tudo o que veio antes de si.
No novo álbum as canções voltam a lidar com a difusa matéria que faz de nós seres pensantes: como o amor, a raiva, a mentira, a ilusão e a desilusão. São 13 canções maravilhosamente embaladas numa capa de Paulo Brás e de Cristiana Couceiro. Lá dentro um livrete de 60 páginas, preenchido de colagens que traduzem visualmente a tal matéria difusa das canções. Com Armando Teixeira, em estúdio, estiveram Pedro Monteiro (baixo e percussões), Bruno Cruz (bateria), Miguel Cervini (guitarra), Duarte Cabaça (percussões), Rodrigo Amado (saxofone), Miguel Leiria Pereira (contrabaixo) e ainda vocalistas como Chu Makino, Candy Wu ou Toi. Tudo actores cuidadosamente encenados num drama musical que só Armando Teixeira poderia imaginar. E nesta Arqueologia tudo é real: as máquinas, listadas na capa, as pessoas que gravaram em Lisboa, Hong Kong ou Filipinas, as obras de arte que se reproduzem. Tudo é passível de um dia no futuro ser redescoberto noutro qualquer exercício de Arqueologia.
Lá dentro, no objecto físico que funciona como depósito de todas estas ideias, há qrcodes que abrem outras portas, para mais conteúdos que ficaram de fora, esboços de canções, exercícios em torno de sintetizadores, pequenos vídeos. Porque aqui faz-se música com consciência da história, mas não de costas voltadas para o presente ou para o futuro. Porque, na verdade, a pop vive num eterno agora. E esse é o tempo de Armando Teixeira.