“O retrato é tema que não escapa ao pintor”, é a única frase atribuída em vida a Rembrandt. E também não escapa à obra de Armanda Passos, que leva a Lisboa a exposição “Retrato”, a inaugurar a 16 de Novembro, pelas 19h00, na Galeria S. Mamede. Trabalhos em guache, com o traço distintivo e inconfundível de um nome maior das artes plásticas portuguesas.

Com uma obra intensa e complexa, Armanda Passos foge aos cânones tradicionais que rotulam correntes artísticas de forma mais ou menos explícita. Daí que a extensa produção que assina faça de Armanda Passos um nome singular do panorama das artes em Portugal, com vasta representação em inúmeras colecções públicas e particulares.

Esta exposição também irá abordar uma simbólica parte de guaches, de grandes dimensões, do livro «Bloco de Guaches», com textos de Miguel Cadilhe e da vice-presidente do Museu de Serralves, Isabel Pires de Lima.

De acordo com Miguel Cadilhe, a pintura de Armanda Passos “tem o poder que vem de um dom, do estudo profundo, vem da intense originalidade”, enquanto Isabel Pires de Lima lembra a centralidade que a figura humana assume na obra da artista. “No magma de cor que os guaches de Armanda Passos constituem, a figura humana não deixa nunca de reclamar uma centralidade imponente. Essa não pode deixar de ser a primeira evidência quando se percorre os 250 guaches aqui presentes, provenientes de cerca de quatro décadas de uma incansável visitação do humano”, refere a ex-ministra da Cultura.

Para Pedro Flor, professor de ‘História da Arte’ na Universidade Aberta e na Nova de Lisboa, e que assina o texto que acompanha o catálogo desta exposição, “o proveito que se retira na análise das peças exibidas, sem descurar o lastro retratístico deixado pela pintora ao longo da sua rica e já vasta carreira, leva-nos à ciência do desenho e à mestria do uso do mesmo no tocante à representação de rostos, semblantes e gestos”, lembrando que a pesquisa e o percurso no campo do retrato não constituem novidade na expressão de Armanda Passos. “O Bloco de Desenhos ESBAP ou o notável Retrato de Ricardina na Casa de Camilo (S. Miguel de Ceide) testemunharam os inegáveis méritos gráficos e colorísticos de uma pintora que sempre concede o privilégio à mulher de constituir o eixo estrutural da sua criação artística”, salienta.

À centralidade da figura feminina como modelo preferencial da obra de Armanda Passos, Pedro Flor junta a segurança do traço que nunca se enerva e que sublinha volumes e texturas. “As figurações eleitas (verdadeiros arquétipos) são imagens minuciosas, poderosas e desconcertantes numa mistura de impressões e sensações inscritas no subconsciente, em permanente diálogo com a imaginação”, sublinha Pedro Flor, frisando que “todos os retratos, de silhueta bojuda e de rosto intemporal, buscam porém um ideal (a emancipação feminina?) e parecem ser imagens de condições ou puros ícones de uma nova ordem social e matriarcal”.

Sobre Armanda Passos
Armanda Passos licenciou-se em Artes Plásticas pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde também foi monitora de Gravura (1977-79). Vive e trabalha no Porto, tendo começado a expor em 1976. Distinguida pelo Ministério da Cultura em 1984, participou em numerosas exposições individuais e colectivas, e representou Portugal em várias bienais internacionais. Foi ainda premiada no III Prémio Dibujo Artístico J. Pérez Villaamil, em 1990, e com o Prix Octogne, Charleville, França, no ano de 1997. Em 2012, foi feita, pelo Governo português, Comendadora da Ordem de Mérito.

Sobre a obra de Armanda Passos escreveram Fernando Pernes, Joaquim Matos Chaves, Mário Cláudio, José Saramago, Vasco Graça Moura, António Alçada-Baptista, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Arnaldo Saraiva, Eduarda Chiote, Armando Silva Carvalho, Álvaro Siza, Eduardo Prado Coelho, Fernando Guimarães, Lídia Jorge, Mia Couto, António Barreto, Luís de Moura Sobral, Raquel Henriques da Silva, José Augusto-França e Sylvie Deswarte-Rosa, entre outros.

A artista está representada em coleções públicas, entre as quais, em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Champalimaud, Museu do Oriente, Ministério da Justiça ou Ministério da Cultura. No Porto, entre outras instituições, marca presença no Museu de Serralves.