Afonso Pais tem um percurso estabelecido de colaborações com cantores, com relevo para a que vem mantendo com JP Simões, mas também com Rui Veloso, Edu Lobo, Ivan Lins, Dee Dee Bridgewater, Camané e António Zambujo, em todos esses casos colocando um pé, e às vezes os dois, fora do jazz. A parceria com Rita Maria permite-lhe fixar-se no género musical em que estabeleceu a sua linguagem mais pessoal e mais de acordo consigo próprio, por muitas influências que venham de fora – como a da música popular brasileira e também a da portuguesa, que ambos claramente amam. Talvez seja isso que a torna tão especial, com um segundo disco, Além das Horas, a confirmar a relevância do primeiro, Míope e o Arco-Íris. Da junção de um dos melhores guitarristas e de uma das melhores vocalistas do jazz nacional vem surgindo, pois, algo de particularmente notável, e isso porque se adotam várias tradições combinadas (pressente-se, por exemplo, o gosto de Pais pela leitura que o bebop fez do swing, a exemplo das interpretações ellingtonianas protagonizadas por Monk) na perspetiva de lhes dar um toque de “heresia”.