Off the record

Maria Rueff: uma artista “de mão cheia” tímida e muito humilde

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“Porque eu sou do tamanho do que vejo e não, do tamanho da minha altura”, as palavras são de Fernando Pessoa mas podem definir Maria Rueff e a sua longa carreira.

De estatura baixa, a atriz viu mais além quando, há mais de duas décadas abraçou a representação. A boa disposição e sorriso largo que escondem, ainda hoje, uma leve timidez, rotularam-na de humorista, mas Rueff é muito mais do que um estilo, é uma atriz de mão cheia, com um estatuto de peso num país que adora: Portugal.

Acabado de estrear mais um projeto ao lado de Herman José – ‘Cá por casa’, na RTP – Maria falou com a Move Noticias e fez um balanço dos últimos 25 anos, em que trabalhou maioritariamente junto “do maior”, e falou também daquilo que aí vem.

Sem medo da sombra

Foi no início dos anos 90 que, depois de pensar ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, acabou por enveredar pela carreira artística diplomando-se no curso de Formação de Actores, na Escola Superior de Teatro e Cinema.

A sua estreia aconteceu pela mão de Armando Cortez numa peça de Francisco Ors, ‘Quem muda a fralda à menina?’, em 1991. Mais tarde, com o ator João Baião iniciou uma série de cafés-teatro na noite de Lisboa. Foi exatamente numa dessas apresentações que o ‘Rei da Comédia’ a descobriu. Desde então, mais do que colegas, nasceu uma amizade para a vida.

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“Já lá vão alguns anos”, começa por recordar sublinhando o “privilégio imenso” que sente por fazer comédia ao lado de Herman José: “Ele fez de mim a comediante que sou. É uma pessoa muito generosa e com inúmeras janelas – como ele próprio gosta de dizer – e é na vida uma grande fortuna ter um amor artístico assim!”

A troca de “galhardetes” entre os dois é uma constante – sempre assim foi! – e também o humorista não se cansa de elogiar Maria, que vê como “única”.

Embora seja muitas vezes associada a projetos assinados por Herman, Rueff garante que nunca receou que lhe dissessem “estar na sombra de”. “Ao longo de todo este tempo tentaram dizer muita coisa. Infelizmente no meio artístico as pessoas gostam de guerras e de alimentar ódios, mas connosco é diferente, a nossa relação é genuína e pautada pelo respeito e admiração mútuos”, esclarece.

Em antena com novas personagens, como a empregada Conceição, Rueff promete trazer à estação pública personagens de outrora que tanto prazer lhe deram a construir e que continuam na memória dos portugueses, como é o caso de ‘Roseti’ que já conta com 18 anos de existência.

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A incerteza de ser artista

Integrada num projeto que considera “maduro”, Maria Rueff é muito pragmática no que toca à sua carreira e não cai em ilusões. Ainda que, atualmente, tenha um estatuto definido e “seja muito acarinhada pelo público”, não esquece os “desertos” pelos quais passou.

“A vida de um artista é muito incerta, nunca sabemos o que poderá vir a seguir ou quanto tempo ficaremos sem trabalho. Somos os primeiros precários da história”, enfatiza a atriz que “pensa” com o coração. “Gosto de tudo aquilo pelo qual me apaixono e por isso vou atrás”, sublinha quando questionada sobre as suas preferências ao nível da representação.

A “luta diária” para se reinventar e conquistar o público não a fez, porém, pensar em desistir ou seguir outro rumo. No entanto, Rueff gostaria, à imagem daquilo que “acontece lá fora”, que os artistas portugueses fossem reconhecidos em vida.

Relembrando o “grande amigo” Nicolau Breyner, a comediante enaltece, mais uma vez, Herman José: “Ele está no topo da sua carreira, e com o ‘Cá por casa’ é importante que as pessoas se apercebam o privilégio que é ter uma pessoa como ele entre nós!”

À margem da sua presença na RTP, continua em digressão com a peça ‘António e Maria’ – pela qual foi distinguida com o Globo de Ouro de Melhor atriz de teatro -, de António Lobo Antunes, e desconhece, para já, quando irá regressar com outros formatos.

Melhor Atriz de Teatro: Maria Rueff em "António e Maria"

O papel da sua vida: o de mãe

Apaixonada pela profissão, Maria Rueff tem na filha, Laura, de 12 anos, a maior prioridade. Fruto do relacionamento da atriz com José Pedro Vasconcelos, a menina faz as delícias da mãe.

Embora muito reservada no que toca ao seu rebento, a atriz sublinha contudo que a jovem é “atenta e inteligente”, não se deixando deslumbrar com as profissões mediáticas dos pais.

Sem querer antecipar o futuro de Laura, Maria não esconde o orgulho ao reconhecer-lhe já vários talentos: “Não vou negar que tem jeito… Sabe fazer sotaques na perfeição, é muito engraçada e canta bem”.

Consciente, Rueff garante que “seja qual for a escolha dela”, a apoiará “mas sem cunhas”. “Ela terá de fazer o seu percurso tal como eu fiz”, afirma, na esperança de que a herança do nome dos pais nunca pese à jovem.