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Nicolau Breyner: até sempre “senhor contente”!

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Aos 75 anos, o veterano ator despediu-se do seu mais longo papel, uma vida recheada de diversidade, muitas paixões e trabalhos de destaque na representação. Na segunda-feira, 14 de março, Nicolau Breyner sucumbiu a um ataque cardíaco, chocando o país que o viu quase como uma pessoa da família.

Como para toda a gente, os anos passavam por ele, mas a idade parece não o rotular, como que o tornando eterno. Desde cedo, Nicolau percebeu que a vida tem que ser vivida com paixão, com entusiasmo e nunca facilitou.

Em 2011, numa entrevista, não soube dizer qual o segredo para a frescura que aparentava, apontando talvez para o facto de trabalhar multo. “Tenho uma vida muito ativa, sobretudo intelectualmente. Além disso, divirto-me muito a fazer as coisas e isso é um grande segredo. Também comecei a relativizar muito as coisas. Só me chateio com o que vale mesmo a pena”, partilhou como quem conta um segredo.

O facto de também estar “sempre rodeado de gente jovem” contribuía para a jovialidade: “Tenho duas filhas e três enteados, portanto aquilo é uma pousada da juventude”. Na altura, tinha já vencido o cancro da próstata que o surpreendeu em 2009 e o ensinou a olhar para a existência em pleno. Afinal, “o que o cancro me deu foi a certeza de que isto irá acabar mais cedo ou mais tarde. Acelerou a sensação de que a vida tem um fim”.

Quando atingiu os 50 anos de carreira, em 2010, assumiu que ainda lhe faltava “fazer muitos filmes como ator, fazer mais coisas em televisão”. ” Espero também cantar mais coisas, até porque quero gravar um disco”, revelou.

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Nascido a 30 de julho de 1940 em Serpa, João Nicolau de Melo Breyner Lopes cedo começou a ser tratado por Nicolau, um nome raro na época, e depressa passou a ser chamado apenas Nico, um diminutivo que se perpetuou no tempo.

Por vontade do pai que era professor, estudou Direito mas sempre com o desejo de ser cantor lírico. A mudança aconteceu no dia em que um frade argentino, José Mujica, jantou na casa da família e o ainda jovem Nicolau teve oportunidade de cantar para o convidado. “No fim, disse-me que eu era uma benção e aconselhou os meus pais a deixarem-me seguir”, contou em 2008, à revista “Sábado”.

Rapidamente deixou as leis para trás e ingressou no Conservatório Nacional. Começou pelo canto, antes de agarrar o teatro por não ter “disciplina para a ópera”. Aos 18 anos, “apetecia-me ter namoradas, ir à praia, andar na borga…”, recordou numa outra conversa pública.

Aluno brilhante e apadrinhado por Vasco Morgado estreou-se em palco ao lado de Laura Alves na peça “Leonor Telles”, no Teatro Nacional Popular, começando a destacar-se em papéis cómicos. Com talento reconhecido, assumiu sempre que no teatro aprendeu tudo, sem nunca se apaixonar verdadeiramente, principalmente “por ter de fazer todas as noites a mesma coisa”.

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Na televisão, apareceu primeiro no Festival da Canção, em 1968, conquistando o quarto lugar com o tema “Pouco Mais”, fazendo depois as “Aventuras de Pasquale”, na RTP1. “Nicolau no País das Maravilhas” foi o primeiro programa que teve após o 25 de Abril, nascendo assim, a par com Herman José, a dupla “Senhor Feliz e Senhor Contente”.

Falar da história das novelas em Portugal obriga a que se lembre sempre e para sempre de Nicolau Breyner que, no início da década de 1980, esteve na origem de “Vila Faia”, a primeira história feita e produzida em Portugal. Em 1982, surge então como ator, o carismático João Godunha, e, simultaneamente, diretor de atores e co-autor do guião da novela pioneira no nosso país.

Certo do caminho a seguir, Breyner fundou a NBP Produções que deu origem à atual Plural Entertainment, tornando-se o verdadeiro precursor da indústria da ficção da televisão nacional. No currículo, deixa registadas muitas novelas, sitcoms da sua autoria, mais de cinquenta participações em filmes. Atualmente, gravava “A Impostora”, a próxima trama da TVI, ao lado de amigos de longa data, como Fernanda Serrano, Dalila Carmo ou Diogo Infante.

Bom vivant, Nicolau Breyner contou um dia que foi com “13 ou 14 anos” que perdeu a virgindade com uma empregada da família em Lisboa. Casamentos teve três, o primeiro aos 25 anos e que acabou ainda na lua de mel. “Estive casado poucos dias. Foi um total disparate da minha parte. Já disse várias vezes que peço as maiores desculpas a uma pessoa que feri por inconsequência. Porque é que quis casar? Fiz muita coisa na vida que ainda estou para perceber porquê. Pensei que era melhor acabar logo ali do que mais tarde”, justificou.

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Foi casado com Mafalda Barbosa, irmã de Carlos Barbosa, e com a atriz Sofia Sá da Bandeira. Com Cláudia Fidalgo Ramos, filha do realizador e encenador Artur Ramos, teve as duas filhas, Mariana e Constança, agora com 22 e 21 anos, respetivamente. O último casamento foi com Mafalda Bessa, mãe do ator Tiago Teotónio Pereira, de quem se divorciou no verão do ano passado, após nove anos de vida em comum.

Há pouco tempo, à Move Notícias, confidenciou que “o amor é sempre importante, mas com o tempo deixa de ser uma prioridade”, como que resignado aos falhanços do coração.

Dono de reconhecida massa crítica, tentou conquistar a política em 1995, mas perdeu as eleições para a Câmara Municipal de Serpa à qual se tinha candidato pelo CDS-PP. Em 2013, sob a sigla do Partido da Nova Democracia, candidatou-se também à Assembleia Municipal de Sintra do “SIM – Movimento Independentes por Sintra”.

Os factos demonstram que Nicolau Breyner aproveitou bem a passagem terrena, até ao fim, deixando o protagonismo dos próximos capítulos para aqueles que com quem ele aprenderam e que o recordarão “com um sorriso, com carinho”, como pediu no programa “Alta Definição”. “Quando eu morrer o mundo não vai parar porra nenhuma”, garantiu na ocasião, como que deixando o guião para a própria despedida.

E, hoje, em uníssono, cumprindo um desejo do artista, os portugueses confirmam: “Gostamos de si, Nico!”.

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Fotos: Move Noticias / Reprodução